Capítulo 3 — O Mundo Invade o Salão

Se o Brasil esquentava a pista… o mundo vinha pra bagunçar tudo — no melhor sentido possível.

Porque quando começavam os acordes de The Beatles, meu amigo… não tinha quem ficasse parado.

“Help!” entrava rasgando, e de repente o salão virava outro.

Mais solto, mais elétrico… até quem jurava que só sabia dançar agarradinho se via arriscando uns passos meio inventados, meio ousados — e totalmente felizes.

Era como se a gente tivesse ganhado autorização pra sair um pouco do script.

E saía mesmo.

Mas nada… absolutamente nada… se comparava ao momento mais aguardado, estudado e — por que não? — ensaiado da noite.

Quando tocava The Mamas & the Papas.

“Monday, Monday…”

A pista enchia.

Os casais já sabiam.

Os atentos já se preparavam.

E lá estava ele… posicionado, concentrado, quase um atleta esperando o apito inicial: Mauro Alves da Cruz.

A música seguia…

o clima subia…

até que…

silêncio.

Cinco segundos que pareciam uma eternidade.

Casais se soltavam meio sem graça, alguns riam, outros fingiam naturalidade… e o Mauro? Ah, o Mauro vivia pra esse momento.

Era a deixa.

O riso dele vinha antes mesmo da música voltar — e quando voltava, era aquela mistura de susto, alegria e bagunça organizada que só quem viveu entende.

Aquilo não era só uma pausa na música.

Era um espetáculo dentro do espetáculo.

E o salão vinha abaixo — não de barulho, mas de vida.

Logo depois, como se o mundo resolvesse dar mais uma volta pelo Grêmio, entrava Trini Lopez com suas canções cheias de alma latina.

“Granada”… “El Reloj”…

Aí o clima mudava de novo.

Ficava mais intenso, mais próximo… mais… digamos… perigoso para corações desprevenidos.

Porque tinha música que era só pra dançar.

Mas tinha música que era pra sentir.

E essas… ah, essas aproximavam mais do que qualquer convite bem feito.

O mais bonito de tudo?

A gente estava ali, num salão simples, numa cidade nossa…

e, ao mesmo tempo, viajando o mundo inteiro sem sair do lugar.

Inglaterra, Estados Unidos, México, Espanha… tudo cabia naquela fita girando no Akai, obediente, enquanto o Gilson, lá no comando, costurava continentes como quem monta uma história.

E montava mesmo.

Porque cada música era um capítulo.

Cada dança, um parágrafo.

Cada olhar… uma frase que ninguém precisava dizer em voz alta.

E quando a sequência encaixava — e quase sempre encaixava — dava aquela sensação boa, difícil de explicar e impossível de esquecer:

A gente não estava só dançando…

A gente estava vivendo o mundo.

E vivendo do nosso jeito.

Com riso fácil, passo improvisado…

e história pra contar o resto da vida.

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