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Mostrando postagens de março, 2026

De Penacho a Dutra

 📖 Capítulo 1 – O Penacho nasce Antes de existir o Dutra, existia o Penacho. E ele nasceu onde tudo parecia acontecer ao mesmo tempo: na casa número 174 da Praça Ary Parreiras, em Miracema. Ali não era só um endereço. Era um mundo. De frente para a Prefeitura, ao lado do Tiro de Guerra, quase em frente à Igreja Matriz… era como se a vida tivesse escolhido aquele pedaço da cidade para passar mais devagar — ou talvez mais intensamente. Foi ali que comecei. Minha infância não foi apenas feliz — foi daquelas que a gente carrega no bolso da alma. Brincadeiras na praça, gente indo e vindo, conversas jogadas fora nas calçadas, o som da cidade vivendo sem pressa… tudo isso foi me formando sem que eu percebesse. Naquele tempo, não havia a menor preocupação em registrar momentos. A gente simplesmente vivia. E talvez por isso tenham sido tão verdadeiros. Foi também ali que nasceu o Penacho. Não sei se pelo jeito, pela ousadia, pelas ideias fora do lugar comum… ou simplesmente porque todo men...
 🎧 Capítulo 6 — A Playlist Infinita Se alguém me perguntasse quantas músicas cabiam naquele salão… eu diria, sem medo de errar: Mais do que o tempo podia comportar. Porque não era só o que tocava. Era o que ficava. O gravador Akai girava obediente, a fita correndo como quem sabe que está fazendo história… e a gente ali, sem perceber, gravando tudo também — só que por dentro. Cada música virava uma lembrança. Cada sequência, uma história. Cada noite… um capítulo inteiro. E o mais curioso? A gente achava que estava só vivendo o momento. Não fazia ideia de que estava montando uma playlist que nunca mais iria parar. Hoje, ela existe. Não só na tecnologia — essa que organiza, enumera, contabiliza… mas na memória, que faz algo muito melhor: Seleciona o que importa. São “apenas” 948 músicas, você disse. Eu arrisco dizer que são mais. Porque entre uma e outra… tem o intervalo do riso, o barulho do salão, o convite aceito, o não disfarçado, o olhar que demorou meio segundo a mais. Isso tam...
 Capítulo 5 — Personagens do Baile Se a música era a alma… os personagens eram o espetáculo. Porque baile nenhum vive só de som. Ele precisa de gente. E, no nosso caso, de tipos inesquecíveis. Tinha sempre o dançarino oficial — aquele que não só sabia todos os passos, como ainda inventava uns novos no meio do caminho. Dançava com uma, com outra, com todas… e parecia nunca cansar. Era admirado, um pouco invejado… mas, no fundo, necessário. Todo baile precisa de um desses pra puxar o nível da pista. Tinha o corajoso estratégico. Esse não era o melhor dançarino, mas tinha uma habilidade rara: sabia a hora certa de chegar. Não desperdiçava convite. Observava, calculava, e quando ia… dificilmente voltava sozinho. Tinha o tímido profissional — encostado na parede, copo na mão (às vezes vazio há meia hora), olhando tudo como se estivesse fazendo uma pesquisa de comportamento humano. Queria dançar? Queria. Muito. Mas precisava de um milagre… ou de alguém que tivesse mais coragem que ele. E...

GEAO = Uma história

          Capítulo 4 — Quando o Amor Tomava Conta Se até ali a pista era alegria… aqui ela virava sentimento. Não precisava anúncio. Não precisava aviso do Gilson. Bastava começar o acorde certo… aquele mais suave, mais demorado… que o salão inteiro entendia: Era hora de chegar mais perto. As músicas italianas tinham esse poder. Não vinham pra animar… vinham pra envolver. E quando ecoavam canções como “Dio, Come Ti Amo” ou “Canzone per Te”, alguma coisa mudava no ar. A conversa diminuía. O riso ficava mais baixo. E os passos… ah, os passos ficavam mais curtos — de propósito. Porque ali ninguém queria distância. Queria tempo. Tempo pra segurar a mão com um pouco mais de firmeza. Tempo pra sentir o perfume. Tempo pra perceber que aquela dança… talvez não fosse só mais uma. Tinha convite que já vinha diferente: — Dança? Mas o tom não era o mesmo. O olhar também não. E, curiosamente, quase ninguém recusava. Porque aquelas músicas não pediam escolha. Elas criavam o m...
 Capítulo 3 — O Mundo Invade o Salão Se o Brasil esquentava a pista… o mundo vinha pra bagunçar tudo — no melhor sentido possível. Porque quando começavam os acordes de The Beatles, meu amigo… não tinha quem ficasse parado. “Help!” entrava rasgando, e de repente o salão virava outro. Mais solto, mais elétrico… até quem jurava que só sabia dançar agarradinho se via arriscando uns passos meio inventados, meio ousados — e totalmente felizes. Era como se a gente tivesse ganhado autorização pra sair um pouco do script. E saía mesmo. Mas nada… absolutamente nada… se comparava ao momento mais aguardado, estudado e — por que não? — ensaiado da noite. Quando tocava The Mamas & the Papas. “Monday, Monday…” A pista enchia. Os casais já sabiam. Os atentos já se preparavam. E lá estava ele… posicionado, concentrado, quase um atleta esperando o apito inicial: Mauro Alves da Cruz. A música seguia… o clima subia… até que… silêncio. Cinco segundos que pareciam uma eternidade. Casais se soltavam...
 🇧🇷 Capítulo 2 — O Brasil que Dançava Se tinha uma coisa que unia todo mundo no salão, sem discussão, sem votação e sem erro… era quando o Brasil começava a tocar. Podia estar todo mundo meio espalhado, conversa aqui, paquera ali, um copo na mão, outro criando coragem… mas bastava entrar o balanço certo que o salão se ajeitava sozinho. E quando a voz de Wilson Simonal surgia… pronto. Não tinha defesa. Era sorriso automático, pé batendo no chão e aquela sensação de que a vida, pelo menos naquele instante, estava absolutamente no lugar certo. “Sá Marina” não era só música… era convocação. E ninguém queria ficar de fora. Logo depois vinha Jorge Ben Jor — ainda “Jorge Ben”, com aquele jeito único de misturar samba, balanço e uma alegria meio malandra que fazia até os mais travados arriscarem um passinho. E aí acontecia uma coisa bonita de ver: ninguém dançava igual… mas todo mundo dançava certo. Porque ali não tinha julgamento. Tinha entrega. E quando o som de Sérgio Mendes & Bra...
 🎶 Capítulo 1 — A Pista Enche Chegar cedo no baile não era ansiedade… era estratégia. Quem chegava primeiro escolhia lugar, observava o terreno, media o movimento e, principalmente, já ia desenhando mentalmente quem seria convidada para a primeira dança. Porque, meu amigo, a primeira dança podia não garantir namoro… mas também podia decidir muita coisa. O salão ainda meio vazio, aquele eco leve de conversa tímida, cadeira arrastando, risadinha nervosa aqui, outra ali… e lá estava ele, soberano, respeitado como poucos: o gravador Akai, com seu rolo de fita girando devagar, como quem também estava aquecendo para a noite. E no comando… o maestro sem batuta, mas com ouvido de ouro: o Gilson. Grêmio Estudantil Alberto de Oliveira não tinha DJ, mas tinha algo melhor — alguém que sabia ler a alma da pista. Gilson não colocava música… ele armava situações. Era quase um cupido com fita magnética. A primeira música nunca era por acaso. Ela vinha como um convite educado: “Pode chegar… a pist...

Luberdadecde Expressão

  O Natal das Gerações: Do Chiado à Dona Ermelinda ​ Por Adilson Dutra ​Existem conexões que só o coração de um cronista é capaz de traçar. Recentemente, ao percorrer as imagens da Praça do Chiado , em Lisboa, vi-me subitamente transportado. A ornamentação lusa, em toda a sua elegância, era o espelho de um lugar mais próximo, mais íntimo: a nossa Praça Dona Ermelinda , em Miracema. ​Naquela noite, o sonho fez o resto. Vi a nossa Fonte Luminosa — a mais bela do interior fluminense — pulsar em cores, enquanto um trenó impossível emergia⁸ de suas águas. Daquela visão onírica, nasceu este resgate das figuras que foram o "Papai Noel" de cada tempo. ​As Sombras Amigas dos Anos 50 e 60 ​Para a minha geração, a dos anos 1950, o Natal tinha as faces de Neca Solon e do Cabo Atleta . Figuras tão indissociáveis da nossa paisagem afetiva que acabaram fundidas no meu alter ego, o Ermenegildo — uma síntese da força de um e da alma do outro, que me acompanha há décadas de escrita e r...

Carta para o Erasmo

  Carta aberta para o Erasmo Tostes Meu caro Erasmo  Esta carta aberta não tem o objetivo de responder sua última crônica, no jornal Liberdade de Expressão, mas rebater incisivamente a idéia de alguns amigos, que me chamaram de velho ou até de museu ambulante, por ter reconhecido cem por cento dos Tipos Inesquecíveis que você colocou em destaque, falando que seria um teste para quem tivesse mais de cinqüenta anos, que é o meu caso, porém com pouco menos dos sessenta, que só chegarão daqui a dois anos e pouco. Você, meu caro Erasmo, mexeu com minha infância, falando do Amaro Leitão, pai de grandes amigos meus, do velho Antenor Rego, com quem proseei bastante nas imediações do parquinho, falou do Briguelo, que muitos amigos sequer imaginam quem seja, mas eu, velho de guerra, servi alguns cafezinhos e broas para o grande eletricista, grande em todos os sentidos. Falando em Briguelo, meu caro amigo, me lembro do Bem da Sanfona, que também fez parte da minha infância e me transmiti...

Chico da Gráfica

  Ontem perdi um grande amigo, um professor, um mestre na arte do ofício que aprendeu. Ontem perdi uma referência na minha Miracema, meu amigo Francisco Salles de Souza, ou Chiquinho da Gráfica, como sempre foi conhecido na cidade e mesmo entre seus amigos.  O nome que carregou com ele tem um significado, foi mestre de muitos tipógrafos, aprendizes como eu e dezenas de garotos, muitos se tornaram profissionais e seguiram seus passos, eu, incentivado por ele e meu Tio Ari, seu companheiro de profissão, me incentivaram a seguir a outra parte da gráfica, as letrinhas de uma máquina de escrever, que teclei durante anos até surgir o computador ou estes celulares e notebooks que hoje digito.  Tenho três históricas com o Chico da Gráfica, assim eu o chamava, que conto aqui para reverenciar este artista gráfico que tanto admirei e este artista declamador e poeta que poucos conheciam, só aqueles que com ele conviveram, como neste dia inesquecível para Miracema, que narro abaixo no...

Achando o caminho do microfone

           A primeira vez no microfone Não havia luz vermelha avisando “no ar”. Nem estúdio, nem isolamento acústico, nem nada dessas modernidades do rádio. Era um lugar rústico no Jardim de Miracema, uma espécie de oca, onde funcionava o serviço de som da cidade. E foi ali que tudo começou. Geraldo Brandão, o Mocinho, acreditava numa coisa curiosa: que um garoto de 12 anos podia animar as manhãs de domingo de Miracema. Não sei exatamente por que ele acreditou nisso. Mas acreditou. E assim, naquele espaço simples, sem luz indicadora e sem cerimônia, um menino começou a falar ao microfone para a cidade inteira ouvir. Talvez eu estivesse mais nervoso do que imaginava. Talvez a voz tenha tremido um pouco. Mas ali nasceu uma coisa que nunca mais me abandonou: o rádio. E pensar que isso aconteceu há 64 anos, naquela oca improvisada no Jardim de Miracema, quando um homem chamado Mocinho resolveu confiar num garoto. Às vezes a vida começa assim: com alguém acredit...

Seresta na João Pessoa

  A seresta em minha casa Entre tantas serestas que vivi ao lado de Fernando Nascimento, há uma que guardo com carinho especial. Certa noite, em minha casa em Miracema, reuniram-se três velhos seresteiros da terrinha: Esrte quevos escreve, Fernando Nascimento, José Felicíssimo e o diretor do colégio de Pirapetinga, Sr. João Oliveiras — todos professores, todos apaixonados pela música. Eu havia sido aluno interno daquele colégio, graças à generosidade de João Oliveira, amigo de infância de meu pai. Minha família não tinha condições de pagar um colégio particular, e ele abriu para mim as portas do estudo. Naquela noite não havia formalidade. Apenas violão, música e amizade . Entre uma canção e outra, dois litros de uísque ajudavam a soltar as lembranças, as histórias e as gargalhadas. E ali estavam eles — três homens simples, professores, seresteiros, amigos — cantando pela madrugada de Miracema como se o tempo não tivesse pressa. Quando hoje penso em Fernando, muitas imagens m...

Discursos com lágrimas

Hoje E ai. choro ou corrijo o texto? Depende do que você quer alcançar. Se a ideia é desabafar e deixar o texto como está, o “choro” pode ser uma forma de aceitar o que saiu espontaneamente. Mas se você quer que o texto seja mais claro, bonito ou impactante, aí vale a pena corrigir. Uma forma prática de decidir é se perguntar: Esse texto vai ser lido por alguém além de mim? Quero que ele comunique algo com precisão ou apenas expresse emoção? Se for só para você, talvez não precise mexer. Se for para compartilhar, a correção pode dar mais força à mensagem. Quer que eu dê uma olhada no texto e sugira ajustes, ou prefere que eu te ajude a manter o tom emocional sem mexer muito? Falo em público desde os quatorze anos, quando Geraldo Brandão, o saudoso "Mocinho", ao lado do Jorge Ripada, me transformaram em locutor da ZYJ não me lembro mais o restante dFo prefixo, que funcionava no Jardim de Miracema, ali, naquele que chamamos de Oca do Jardim (foto ao lado), apresentei comícios p...

Muito prazer, eu sou Penacho

Memórias de um menino da Praça Ary Parreiras Quando nasci, em 3 de janeiro de 1950, Miracema ainda não havia completado idade para ser uma debutante. Tinha apenas quatorze anos de emancipada, e eu cheguei ao mundo na casa nº 174 da Praça Ary Parreiras, bem em frente à recém-inaugurada Prefeitura. Ali começava também a minha história com a cidade que me criou. “Há quem jure que nasci sobre uma mesa de bilhar no Bar do Vicente. Não posso provar, mas também nunca fiz muita questão de desmentir.” Não sei exatamente quando virei Penacho. Tenho a impressão de que já nasci assim. Em Miracema, apelido nasce rápido e pega mais depressa ainda. Existem duas versões para a história. A primeira diz que herdei o apelido de um outro Penacho, jogador do Tupan Esporte Clube. Eu era unha e carne com ele, vivia por perto, acompanhando os jogos e as conversas dos mais velhos. Os jogadores do Tupan começaram a me chamar assim também, e quando vi já não havia mais jeito: Penacho tinha passado de um para out...
  APELIDOS DE ONTEM E DE HOJE A cultura dos nomes dos jogadores de futebol no Brasil sempre foi diferente da maioria dos outros países. Por aqui, atualmente, há uma grande mudança em relação ao passado no que diz respeito aos nomes dos atletas. Os nomes europeus passaram a ser valorizados. Vide Rafael Sobis, que teve o sobrenome destacado para favorecer uma negociação com a Espanha. Tenho certeza de que, se fosse Nascimento o seu sobrenome, dificilmente teria o mesmo destaque — como não teve o mais famoso dos Nascimentos, Edson, que se tornou conhecido no mundo simplesmente como Pelé . Você imaginaria hoje um jogador chamado Cabeludo ? E Polaca ? Caçarola , então, nem pensar. Pois estes eram nomes que circulavam com naturalidade nas décadas de 50 e 60, tempos em que Quarentinha, Garrincha, Didi, Zito, Canhoteiro e Pavão eram grandes ídolos. Um ataque formado por Nenenzinho, Careca e Cabeludo já deu muito pano para manga na terrinha. Uma piada de gosto duvidoso, que já cont...