GEAO = Uma história
Capítulo 4 — Quando o Amor Tomava Conta
Se até ali a pista era alegria… aqui ela virava sentimento.
Não precisava anúncio.
Não precisava aviso do Gilson.
Bastava começar o acorde certo… aquele mais suave, mais demorado… que o salão inteiro entendia:
Era hora de chegar mais perto.
As músicas italianas tinham esse poder.
Não vinham pra animar… vinham pra envolver.
E quando ecoavam canções como “Dio, Come Ti Amo” ou “Canzone per Te”, alguma coisa mudava no ar.
A conversa diminuía.
O riso ficava mais baixo.
E os passos… ah, os passos ficavam mais curtos — de propósito.
Porque ali ninguém queria distância.
Queria tempo.
Tempo pra segurar a mão com um pouco mais de firmeza.
Tempo pra sentir o perfume.
Tempo pra perceber que aquela dança… talvez não fosse só mais uma.
Tinha convite que já vinha diferente:
— Dança?
Mas o tom não era o mesmo.
O olhar também não.
E, curiosamente, quase ninguém recusava.
Porque aquelas músicas não pediam escolha.
Elas criavam o momento.
E o momento… decidia por todo mundo.
O salão, que antes era movimento, virava quase um silêncio compartilhado — daqueles cheios de significado.
Casais balançando devagar…
rostos próximos…
alguns olhos fechados, como se quisessem guardar aquilo por dentro…
E guardavam.
Ali nasciam coisas.
Não estou falando só de namoro, não…
estou falando de intenção.
De perceber alguém de um jeito diferente.
De sair do baile pensando mais em uma pessoa do que em todas as outras.
De ir embora com a música ainda tocando na cabeça… e um nome também.
E tinha mais.
Essas músicas tinham um certo atrevimento elegante.
Elas empurravam a gente, com delicadeza, pra frente de sentimentos que talvez ainda nem soubéssemos nomear direito.
Mas sentíamos.
E isso bastava.
No meio da pista, ninguém era especialista em amor…
mas todo mundo era aprendiz dedicado.
E aprendia rápido.
Porque quando a música ajuda… o coração entende sem precisar de explicação.
E lá fora, depois do baile, na volta pra casa, andando devagar de propósito…
vinha aquela certeza mansa, quase sussurrada:
Alguma coisa tinha mudado.
Talvez pequena.
Talvez grande.
Mas suficiente pra fazer o próximo sábado ser ainda mais esperado.
E muitos anos depois… bastava ouvir uma daquelas canções pra tudo voltar.
O salão.
A dança.
O rosto.
E aquela sensação boa, meio sorriso, meio suspiro:
— Foi ali… que começou.
Comentários
Postar um comentário