Capítulo 5 — Personagens do Baile

Se a música era a alma…

os personagens eram o espetáculo.

Porque baile nenhum vive só de som.

Ele precisa de gente.

E, no nosso caso, de tipos inesquecíveis.

Tinha sempre o dançarino oficial — aquele que não só sabia todos os passos, como ainda inventava uns novos no meio do caminho. Dançava com uma, com outra, com todas… e parecia nunca cansar. Era admirado, um pouco invejado… mas, no fundo, necessário. Todo baile precisa de um desses pra puxar o nível da pista.

Tinha o corajoso estratégico. Esse não era o melhor dançarino, mas tinha uma habilidade rara: sabia a hora certa de chegar. Não desperdiçava convite. Observava, calculava, e quando ia… dificilmente voltava sozinho.

Tinha o tímido profissional — encostado na parede, copo na mão (às vezes vazio há meia hora), olhando tudo como se estivesse fazendo uma pesquisa de comportamento humano. Queria dançar? Queria. Muito. Mas precisava de um milagre… ou de alguém que tivesse mais coragem que ele.

E, vez ou outra, o milagre acontecia.

Tinha também o casal já formado, que ia junto, dançava junto e, de certa forma, servia de inspiração… ou de leve frustração pra quem ainda estava no “processo seletivo”.

E não podemos esquecer do observador crítico — aquele que comentava tudo:

— “Esse aí tá pisando no pé dela…”

— “Olha o outro se achando…”

— “Essa música não era agora…”

Especialista em tudo… menos em ir pra pista.

E, claro… tinha nós.

Cada um no seu papel, mudando conforme a noite, conforme a coragem, conforme a música… conforme o olhar que cruzava.

Porque a verdade é uma só:

Ninguém era sempre o mesmo personagem.

O tímido virava ousado.

O ousado levava um “não” e virava filósofo por cinco minutos.

O dançarino brilhava… até errar feio e sair rindo.

E era justamente isso que fazia tudo ser tão bom.

Não tinha roteiro fixo.

Não tinha papel definitivo.

Tinha gente sendo gente.

Errando, tentando, rindo… vivendo.

E, no meio dessa mistura toda, amizades se firmavam, histórias começavam e apelidos nasciam — alguns que atravessariam décadas sem pedir permissão.

Porque baile bom não termina quando a música acaba.

Ele continua nas conversas depois, nas lembranças, nas resenhas… e principalmente nas histórias que a gente conta anos mais tarde, com um sorriso no canto da boca.

E quando alguém escuta e se reconhece, mesmo que em silêncio…

a gente entende, mais uma vez:

— Nós vivemos isso.

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