Quando Miracema era assim

 Texto do meu saudoso amigo Carlos Augusto Tostes Macedo 


QUANDO MIRACEMA ERA ASSIM

De sessenta anos para cá, muita coisa mudou.
Na minha época de criança e juventude não existiam, por exemplo, piscinas em Miracema.

Os lugares mais frequentados para nadar eram outros: um poço no ribeirão acima da Usina, um trecho do ribeirão no quintal da casa de Dona Nunciata, o Conde, a Lagoa Preta e o Moura.

Os divertimentos para a moçada também eram poucos. Aos domingos havia bailes no Aero Clube de Miracema — a famosa “domingueira” —, as matinês do cinema, os passeios pela Rua Direita e algumas festinhas de aniversário.

À noite, o guarda seu Tinoco fechava o trânsito para os automóveis na Rua Direita. Ali desfilavam, indo e vindo, moças e rapazes na calçada do lado da Chevrolet. Alguns rapazes ficavam parados no meio da rua, conversando e apreciando o movimento.

Do outro lado, na calçada da farmácia do Dr. Moacir, passeavam os chamados “de segunda”: crioulos, crioulas, mulatos e mulatas.
Sim… havia um preconceito velado.

No Jardim de Baixo, casais de namorados ocupavam os bancos. Outros passeavam lentamente e alguns ainda procuravam os cantinhos mais escuros...

Ainda na Rua Direita havia uma parada obrigatória: admirar a mais bonita loja do Estado do Rio de Janeiro — “Ao Rei dos Barateiros – Novidades”, do seu José Ferreira de Assis, um orgulho para Miracema. Era uma loja belíssima, que possuía alto-falantes de ótima qualidade tocando lindas músicas, como o grande sucesso da época: “Babalu”, na voz de Ângela Maria.

Defronte à Prefeitura era comum ouvir o som forte e marcante dos caxambus, onde a “crioulada”, descendo dos morros, ia se divertir.
Branco não se misturava, quase nunca. Mas eu e o , ainda bem meninos, estávamos sempre por ali, apreciando e até tentando dançar aquele ritmo quente de origem africana.

Havia também o caxambu no Morro da Jovi, frequentado por crioulos e mulatos.

Tudo parecia uma festa.

Até a missa de domingo, acompanhada pelo belíssimo coral regido por Dona Áurea, era um verdadeiro programa para a população católica. Depois da missa das oito, os rapazes iam para o Jardim de Baixo, sentavam-se nos bancos e apreciavam o “desfile” das moças que saíam da igreja.

Em seguida, cada um corria para casa para almoçar e, às treze e trinta, ir à matinê do Cine Sete, enfrentando o Buru e o Carlinhos na tentativa de “vazar” para assistir ao filme:
Flash Gordon no Planeta Mongo, Fu-Man-Chu, Buck Rogers, ou Tarzan com sua Jane, o Boy e a macaquinha Chita.

Para animar ainda mais a cidade, havia alto-falantes instalados no Jardim de Baixo e na Rua Direita, sob o comando do Chiquito, que anunciava propagandas e tocava os sucessos da época: músicas de Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Luiz Gonzaga e tantos outros, rodadas naqueles discos pesados de 78 rotações por minuto — ainda não existiam os long plays.

Era tudo muito lindo.
Muito puro.
Muito inocente.

E a banda do Cine Sete, a nossa querida Furiosa, alegrava os eventos e as madrugadas dos dias festivos.

Como diz o poeta:

“Oh! Que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida,
da minha infância querida
que os anos não trazem mais...”

Viva Miracema!

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