De Penacho a Dutra

 📖 Capítulo 1 – O Penacho nasce

Antes de existir o Dutra, existia o Penacho.

E ele nasceu onde tudo parecia acontecer ao mesmo tempo:

na casa número 174 da Praça Ary Parreiras, em Miracema.

Ali não era só um endereço. Era um mundo.

De frente para a Prefeitura, ao lado do Tiro de Guerra, quase em frente à Igreja Matriz… era como se a vida tivesse escolhido aquele pedaço da cidade para passar mais devagar — ou talvez mais intensamente.

Foi ali que comecei.

Minha infância não foi apenas feliz — foi daquelas que a gente carrega no bolso da alma.

Brincadeiras na praça, gente indo e vindo, conversas jogadas fora nas calçadas, o som da cidade vivendo sem pressa… tudo isso foi me formando sem que eu percebesse.

Naquele tempo, não havia a menor preocupação em registrar momentos.

A gente simplesmente vivia.

E talvez por isso tenham sido tão verdadeiros.

Foi também ali que nasceu o Penacho.

Não sei se pelo jeito, pela ousadia, pelas ideias fora do lugar comum… ou simplesmente porque todo menino de cidade pequena ganha um nome que acaba sendo mais ele do que o próprio nome.

E o Penacho ficou.

Era ele que corria pelas ruas,

que descobria a música,

que começava a entender o valor das amizades,

que aprendia — ainda sem saber — que a vida seria feita muito mais de encontros do que de caminhos.

Miracema não foi só o lugar onde nasci.

Foi o lugar que me ensinou a ser.

E olhando hoje, com o tempo já bem vivido, eu entendo:

o Penacho não ficou para trás.

Ele só aprendeu a assinar Dutra.

📖 Capítulo 2 – Os anos dourados

Se o Penacho nasceu na praça, foi nos anos seguintes que ele ganhou som.

E que som.

Vieram os anos 60 e 70 — aqueles que depois chamaram de dourados.

E não era exagero, não. Para quem viveu, sabe: havia alguma coisa diferente no ar.

A vida tinha trilha sonora.

Miracema, com seu jeito tranquilo, também vibrava.

As músicas chegavam, os rádios tocavam, e a gente aprendia o mundo pelo ouvido.

Foi aí que a música deixou de ser apenas som…

e passou a ser caminho.

Entre uma conversa e outra, entre amigos que pareciam eternos, fui me aproximando desse universo que me encantava sem pedir licença.

E como toda boa história, não foi sozinho.

Havia sempre uma turma.

Daquelas que se encontra sem marcar, que discute música como se fosse assunto sério — e era — e que transforma qualquer esquina em ponto de encontro.

Ali estavam nomes que o tempo não apagou.

Amigos que sabiam tudo de música, que defendiam suas preferências com paixão, que ensinavam sem perceber.

E eu ali, no meio disso tudo, absorvendo.

Foi também nesse tempo que descobri uma coisa importante:

a música não era só para ouvir… era para viver.

Ela estava nas bandas, nos ensaios, nas apresentações, nas tentativas e nos acertos.

Estava na vontade de fazer melhor, de fazer diferente.

E talvez tenha sido aí que o Penacho começou a dar sinais de que não ia se contentar apenas em acompanhar.

Ele queria participar.

Queria deixar sua marca, mesmo sem saber ainda qual seria.

Os anos dourados passaram — como tudo passa —

mas deixaram uma certeza:

não existe silêncio quando a gente aprende a viver com música por dentro.

👉 Capítulo 3 – O som da vida

Capítulo 3 – O som da vida

Se antes a música me encantava, agora ela me chamava.

E não era mais de longe.

Era para dentro.

Foi assim que entrei de vez no universo das bandas, dos dobrados, da disciplina e da emoção que só quem já marchou ou tocou sabe explicar.

A música deixou de ser apenas companhia…

virou compromisso.

E foi nesse caminho que um momento ficou marcado.

Um daqueles que não passam, que ficam.

Eu vi — e nunca esqueci — a apresentação da Banda do Corpo de Fuzileiros Navais.

Aquilo não era apenas uma banda. Era espetáculo, precisão, energia… era outro nível.

Fiquei impressionado.

Mas mais do que isso: fiquei provocado.

Não era inveja, nem comparação.

Era vontade.

Vontade de fazer diferente.

De levar aquilo, de alguma forma, para a realidade que eu tinha nas mãos.

E foi aí que entrou uma peça fundamental dessa história:

meu xará, Adilson Cagiano.

Excelente baterista. Daqueles que não só acompanham — conduzem.

Chamei para a conversa.

Expliquei a ideia.

Propus o desafio.

E ele topou.

Ali começava uma pequena revolução dentro da Banda Marcial do Colégio Miracemense.

Não era copiar.

Era adaptar, criar, ousar dentro do que era possível.

E fizemos.

Ensaios, tentativas, erros, acertos…

até que aquilo que antes era apenas inspiração virou realidade.

E quando a banda tocou daquele jeito, com aquela pegada diferente, com aquela energia nova…

não era só música.

Era identidade.

Talvez ali, sem perceber totalmente, eu tenha entendido uma coisa importante:

não basta admirar o que é bom.

A gente precisa ter coragem de tentar fazer também.

E foi assim que o Penacho, mais uma vez, deu um passo à frente…

sem pedir licença.⁶

📖 Capítulo 4 – O homem e os encontros

Se a música foi o caminho…

foram as pessoas que deram sentido a ele.

Porque, no fim das contas, a vida não é feita do que a gente faz sozinho.

Ela acontece mesmo é nos encontros.

E eu tive muitos.

Alguns viraram histórias.

Outros viraram saudade.

E alguns… viraram os dois.

Havia uma turma.

Daquelas que não precisa marcar hora, nem lugar. Acontecia.

Sexta-feira, por exemplo, tinha destino certo.

O Armazém.

Ali não era só um ponto de encontro — era quase uma instituição.

Mesa, conversa, opinião forte, risada solta… e, claro, música como assunto obrigatório.

E foi numa dessas que aconteceu um daqueles momentos que só quem vive entende.

Um “pega pra capá”.

Do outro lado, ninguém menos que o saudoso Paulinho Máquinas.

Figura respeitada, conhecedor profundo de música, daqueles que falavam com propriedade — e com convicção.

E eu, claro, não ia ficar calado.

O motivo?

Simples e sério ao mesmo tempo:

eu tinha dito que gostava de Os Mutantes.

Pronto.

Foi o suficiente.

A discussão esquentou.

Argumento daqui, opinião dali… e aquela mistura de amizade com teimosia que transforma qualquer conversa em um quase duelo.

Mas era isso que fazia tudo ter graça.

Porque ali não havia inimigos.

Havia paixão.

Pela música, pela vida, pelas ideias.

E no meio disso tudo, outros nomes que o tempo não apaga.

Como Luiz Canário, outro gigante nesse universo, que hoje, gosto de imaginar, continua essas conversas em algum lugar lá em cima — talvez até ainda discordando.

A gente defendia gosto musical como se defendesse time de futebol.

E, de certa forma, defendia mesmo.

Era identidade.

E hoje, olhando para trás, eu vejo que aqueles momentos — simples, despretensiosos, cheios de vida — foram gigantes.

Porque eram verdadeiros.

O tempo seguiu seu curso, como sempre segue.

Levou alguns desses amigos… deixou as lembranças.

Mas uma coisa ele não conseguiu levar:

o valor daqueles encontros.

Porque são eles que ficam.

São eles que sustentam a memória.

São eles que fazem a gente entender que viver valeu a pena.

E se hoje eu conto essas histórias, não é só por mim.

É por todos nós.

Por aquela mesa.

Por aquelas risadas.

Por aquelas discussões que nunca precisaram de vencedor.

Só de presença.

Capítulo 5 – As perdas e as saudades

Chega um momento na vida em que a gente começa a perceber que o tempo não passa apenas.

Ele leva.

E leva sem pedir licença.

Aquela turma, que parecia eterna nas mesas do Armazém, nas conversas sem hora para acabar, começou, aos poucos, a mudar de lugar.

Um aqui já não vinha mais.

Outro demorava a aparecer.

Até que um dia… a gente entende.

Alguns partiram.

E não existe preparo para isso.

Por mais que a idade vá chegando, por mais que a vida vá ensinando… certas ausências nunca ficam normais.

Paulinho Máquinas…

Luiz Canário…

Thiara... 

Cacá Moura...

E tantos que daria para encher um capítulo inteiro.

Dizer os nomes ainda traz imagem, voz, riso.

É como se, por um instante, eles voltassem e sentassem ali de novo, prontos para mais uma conversa — ou mais uma discussão musical daquelas.

E talvez, de algum jeito, voltem mesmo.

Porque a memória tem esse poder.

Ela não substitui a presença…

mas também não deixa desaparecer.

No começo, a saudade aperta.

Depois, ela se acomoda.

E com o tempo, ela muda de lugar dentro da gente.

Deixa de ser só dor…

e passa a ser companhia.

Hoje, quando lembro daqueles momentos, não é apenas tristeza que vem.

Vem gratidão.

Gratidão por ter vivido tudo aquilo.

Por ter tido com quem compartilhar a vida.

Por ter feito parte de uma história que não foi pequena.

Porque não foi.

Pode não ter sido escrita em livros naquela época,

mas foi vivida com intensidade suficiente para merecer ser lembrada agora.

E talvez seja esse o verdadeiro sentido da memória:

não evitar que o tempo leve…

mas garantir que ele não apague.

Os amigos se foram.

Os encontros mudaram.

A vida seguiu outro ritmo.

Mas o que ficou…

ah, o que ficou, ninguém tira.

Ficaram as histórias.

Ficaram os risos guardados.

Ficou a certeza de que valeu.

E isso — só isso — já é muito.

…silêncio respeitoso aqui, porque esse capítulo pede.

Mas ao mesmo tempo, ele prepara algo bonito:

Capítulo 6 – Dutra e a bola de ouro (1987)

O tempo passou.

Passou para todos… mas, em mim, ele fez mais do que marcar idade.

Ele organizou caminhos.

O Penacho, inquieto, curioso, cheio de ideias, não desapareceu.

Ele foi aprendendo. Foi amadurecendo. Foi entendendo que a vida não é só o que a gente vive — é também o que a gente constrói.

E foi assim que o Dutra foi surgindo.

Não de uma vez.

Mas aos poucos.

Nos compromissos assumidos,

nas responsabilidades que chegaram,

nas escolhas que deixaram de ser só minhas.

Mas em meio a tudo isso, teve um momento que ficou marcado.

1987.

O ano da bola de ouro.

Não sei se foi o prêmio em si, o reconhecimento, ou tudo o que ele representava…

mas ali havia mais do que um troféu.

Havia história.

Havia o menino da Praça Ary Parreiras,

o jovem dos anos dourados,

o músico apaixonado,

o amigo das mesas do Armazém…

Tudo aquilo estava ali, de alguma forma, representado.

Porque conquistas nunca vêm sozinhas.

Elas carregam junto tudo o que veio antes.

A bola de ouro não foi apenas um ponto alto.

Foi um símbolo.

Símbolo de uma caminhada feita com verdade,

de uma vida vivida com intensidade,

de alguém que nunca teve medo de participar — de entrar no jogo.

E talvez seja isso que mais me define.

Eu joguei.

Joguei na música,

joguei nas amizades,

joguei na vida.

Ganhei algumas, perdi outras…

mas nunca fiquei na arquibancada.

Hoje, olhando para trás, já com a calma que o tempo ensina, eu entendo:

o Dutra não substituiu o Penacho.

Ele apenas aprendeu a carregar tudo o que o Penacho foi.

E é por isso que, se tivesse que resumir tudo em uma frase simples, sem enfeite, sem exagero, eu diria:

— Este sou eu.

Epílogo – Luna, Felipe, Lara e Maria Alice 

Quando vocês me pediram, naquele jeito leve de quem não imagina o tamanho do que está dizendo —

“Vô, escreve suas memórias” —

eu não respondi na hora.

Talvez porque, no fundo, eu achasse que ainda não era tempo.

Ou talvez porque eu não soubesse que elas já estavam prontas… só espalhadas.

Hoje, juntando tudo isso, eu entendo:

não escrevi apenas sobre mim.

Escrevi sobre um tempo que já não volta,

sobre pessoas que continuam vivas dentro da lembrança,

sobre lugares que me fizeram ser quem eu sou.

Escrevi sobre vida.

Mas, acima de tudo, escrevi por você.

Para que um dia, quando o tempo também passar um pouco mais para o seu lado,

você possa abrir essas páginas e encontrar mais do que histórias.

Encontrar raízes.

Porque a vida segue, muda, transforma…

mas é importante saber de onde a gente veio.

Se em algum momento você sorrir lendo isso,

se em outro sentir um apertinho no peito,

ou se simplesmente fechar o livro e pensar um pouco…

então já valeu.

Porque memória, no fim das contas, não é só lembrança.

É presença.

E agora… ela também é sua.

Com todo amor,

do seu vô.

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