🎶 Capítulo 1 — A Pista Enche
Chegar cedo no baile não era ansiedade… era estratégia.
Quem chegava primeiro escolhia lugar, observava o terreno, media o movimento e, principalmente, já ia desenhando mentalmente quem seria convidada para a primeira dança. Porque, meu amigo, a primeira dança podia não garantir namoro… mas também podia decidir muita coisa.
O salão ainda meio vazio, aquele eco leve de conversa tímida, cadeira arrastando, risadinha nervosa aqui, outra ali… e lá estava ele, soberano, respeitado como poucos: o gravador Akai, com seu rolo de fita girando devagar, como quem também estava aquecendo para a noite.
E no comando… o maestro sem batuta, mas com ouvido de ouro: o Gilson.
Grêmio Estudantil Alberto de Oliveira não tinha DJ, mas tinha algo melhor — alguém que sabia ler a alma da pista. Gilson não colocava música… ele armava situações. Era quase um cupido com fita magnética.
A primeira música nunca era por acaso.
Ela vinha como um convite educado: “Pode chegar… a pista é de vocês.”
Os mais animados já se arriscavam, os mais cautelosos fingiam desinteresse (mentira pura), e os tímidos… bom, esses estudavam cada passo alheio como se fosse prova final.
E aí começava o ritual.
Olhar daqui… olhar de lá… aquele meio sorriso… o famoso “vai ou não vai”… até que alguém criava coragem e atravessava o salão como se estivesse indo resolver um assunto sério na diretoria — mas era só um convite:
— Dança?
Se a resposta fosse “sim”, pronto… o mundo melhorava uns 70%.
Se fosse “não”… bem, aí o sujeito virava especialista em disfarçar derrota com elegância em menos de três segundos.
E enquanto isso, a pista ia ganhando corpo.
Casais se formando, passos ainda meio duros no começo, mas logo soltando… porque música boa tem esse poder: ela ensina até quem acha que não sabe dançar.
E não demorava muito para o salão virar aquilo que a gente esperava a semana inteira: um pequeno universo onde tudo fazia sentido.
Ali dentro, não tinha prova difícil, não tinha bronca de pai, não tinha preocupação com o amanhã.
Tinha música.
Tinha gente.
Tinha vontade.
E tinha aquela sensação boa de que alguma coisa podia acontecer a qualquer momento.
Porque sempre acontecia.
Uma troca de olhares mais demorada…
Um riso fora de hora…
Uma dança que começava tímida e terminava com promessa silenciosa…
E lá do canto, atento, quase invisível, Gilson preparava o próximo movimento.
A fita girava.
A noite crescia.
E a pista… ah, a pista já não era mais a mesma.
Era nossa.
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