🎧 Capítulo 6 — A Playlist Infinita

Se alguém me perguntasse quantas músicas cabiam naquele salão… eu diria, sem medo de errar:

Mais do que o tempo podia comportar.

Porque não era só o que tocava.

Era o que ficava.

O gravador Akai girava obediente, a fita correndo como quem sabe que está fazendo história… e a gente ali, sem perceber, gravando tudo também — só que por dentro.

Cada música virava uma lembrança.

Cada sequência, uma história.

Cada noite… um capítulo inteiro.

E o mais curioso?

A gente achava que estava só vivendo o momento.

Não fazia ideia de que estava montando uma playlist que nunca mais iria parar.

Hoje, ela existe.

Não só na tecnologia — essa que organiza, enumera, contabiliza…

mas na memória, que faz algo muito melhor:

Seleciona o que importa.

São “apenas” 948 músicas, você disse.

Eu arrisco dizer que são mais.

Porque entre uma e outra… tem o intervalo do riso, o barulho do salão, o convite aceito, o não disfarçado, o olhar que demorou meio segundo a mais.

Isso também toca.

E toca fundo.

Tem música que, quando começa, não toca no ouvido…

toca direto no tempo.

E aí não tem jeito.

O salão reaparece.

A pista enche.

Os rostos voltam.

Os nomes ganham voz outra vez.

E, por alguns instantes, a gente não está lembrando.

Está vivendo de novo.

O mais bonito disso tudo é que essa playlist não precisa de tomada, nem de aparelho, nem de botão.

Basta vontade.

Basta silêncio por dentro.

Basta uma nota.

E pronto.

Tudo volta.

Os bailes, os amigos, os amores, as tentativas, os acertos, os tropeços… a vida inteira dançando numa sequência perfeita que ninguém ensaiou, mas todo mundo soube seguir.

E mesmo quando a última música parece terminar…

não termina.

Porque sempre fica alguma coisa tocando.

Baixinho.

Constante.

Fiel.

Como quem diz:

— Ainda tem mais.

E tem.

Sempre vai ter.

Porque enquanto existir lembrança…

enquanto existir música…

o baile continua.

E nós também.

— Nós vivemos isso.

Agora sim… luz baixa, salão vazio… mas ninguém foi embora de verdade.


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