Muito prazer, eu sou Penacho
Memórias de um menino da Praça Ary Parreiras
Quando nasci, em 3 de janeiro de 1950, Miracema ainda não havia completado idade para ser uma debutante. Tinha apenas quatorze anos de emancipada, e eu cheguei ao mundo na casa nº 174 da Praça Ary Parreiras, bem em frente à recém-inaugurada Prefeitura.
Ali começava também a minha história com a cidade que me criou.
“Há quem jure que nasci sobre uma mesa de bilhar no Bar do Vicente. Não posso provar, mas também nunca fiz muita questão de desmentir.”
Não sei exatamente quando virei Penacho. Tenho a impressão de que já nasci assim. Em Miracema, apelido nasce rápido e pega mais depressa ainda.
Existem duas versões para a história.
A primeira diz que herdei o apelido de um outro Penacho, jogador do Tupan Esporte Clube. Eu era unha e carne com ele, vivia por perto, acompanhando os jogos e as conversas dos mais velhos. Os jogadores do Tupan começaram a me chamar assim também, e quando vi já não havia mais jeito: Penacho tinha passado de um para outro.
A segunda versão é mais doméstica. Dizem que papai cortava meu cabelo deixando apenas um “tapete” no alto da cabeça, coisa que muitos anos depois o mundo veria em Ronaldo Fenômeno na Copa de 2002. Pode até ser, mas essa explicação sempre me pareceu simples demais.
Prefiro acreditar na primeira história.
Ela tem mais futebol, mais amizade e mais Miracema.
E, afinal de contas, apelido bom é aquele que a rua escolhe pela gente.
Durante muitos anos tive dois nomes.
Um era para os documentos.
O outro era para a vida.
E, como quase sempre acontece nas cidades pequenas, foi a vida que venceu.
Assim nasceu — e ficou — o Penacho.
Quando Campos descobriu o Penacho?
No rádio eu sempre fui Dutra.
Nome sério, de locutor, de quem precisava falar ao microfone com alguma respeitabilidade.
Mas na vida sempre existe um porém.
Quando cheguei ao Banerj de Campos, alguém descobriu meu apelido de Miracema através do Luiz César Moreira, que contou paf todo mundo acreditando que eu iria ficar p... da vida.
E quem descobriu foi um gerente do banco, que depois virou grande amigo: Sérgio Sales.
Um dia o telefone tocou.
Do outro lado da linha uma voz estranha, meio disfarçada, chamava:
— Penacho!
Eu estranhei. A voz não era de ninguém que eu conhecesse em Campos. A pessoa insistia:
— Penacho! Penacho!
Aí respondi meio desconfiado:
— Esse aí é de Miracema… sabe meu nome de guerra.
Do outro lado da linha veio a gargalhada. Era o Sérgio Sales, que tinha descoberto a história e resolveu me testar.
O problema é que ele achou a brincadeira boa demais para guardar só para ele. Contou para um amigo da Rádio Difusora.
Pronto.
Foi assim que Campos dos Goytacazes ficou sabendo que o Dutra também era Penacho.
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