A Nikon fake

 

A VIETNAMITA E A MINHA NIKON

Paris sempre é acolhedora.

Nas três vezes em que por lá estive — 2008, 2011 e 2013 — os asiáticos eram maioria esmagadora entre os milhões de turistas que invadem a cidade todos os anos. E, por isso mesmo, os causos envolvendo esse povo alegre e viajante acabam sempre rendendo boas histórias para quem, como eu, gosta de contá-las.

Eles estão por toda parte.
Não importa a estação: chuva, sol, frio ou calor.
Se você viajar pela Europa, a passeio ou a trabalho, vai esbarrar com um japonês, um chinês, um coreano — e, como neste caso, uma vietnamita.

Antes da nossa terceira viagem ao Velho Mundo, Marina resolveu investir em uma nova máquina fotográfica. Uma Nikon semiprofissional que, segundo os entendidos — entre eles meu amigo Leandro Nunes, jornalista e fotógrafo — era o que havia de mais moderno naquele momento.

Nosso primeiro destino foi Paris.

Descemos no aeroporto Charles de Gaulle e, já no dia seguinte, eu tinha o cenário perfeito para estrear a máquina: um passeio pelo Rio Sena, ao entardecer. Eu já conhecia o roteiro, sabia da beleza do pôr do sol refletindo na água e, principalmente, do espetáculo que é a Torre Eiffel naquele horário.

Máquina pronta.
Baterias carregadas.
Reservas no bolso.

Era o momento.

Chegamos ao embarque do tradicional Bateaux Mouche, cercados — como sempre — por uma multidão de asiáticos. Tudo dentro do roteiro.

Foi quando a cena começou.

Ao meu lado, uma moça asiática — depois descobri que era vietnamita, do Vietnã do Sul — resolveu montar seu equipamento. Abriu um tripé, ajustou a câmera, pegou um controle remoto e, com a maior naturalidade do mundo, começou a circular pelo convés.

Parava, fazia pose…
clicava.

Andava mais um pouco…
clicava.

Virava de lado…
clicava.

E a máquina, lá longe, obedecia com precisão cirúrgica.

Fiquei intrigado.

Olhava para a minha Nikon — “o que havia de melhor no mercado”, segundo os especialistas — e começava a desconfiar de que eu talvez estivesse apenas bem acompanhado… e não tão bem equipado.

A vietnamita não tinha pressa.

Passeou pelo barco inteiro, fez fotos em todos os ângulos possíveis, brincou com a luz do entardecer, com o fundo da Torre Eiffel, com o movimento do Sena.

Quando terminou, voltou calmamente ao tripé, recolheu o equipamento e, ali mesmo, começou a enviar as fotos — via internet — para amigos e familiares.

Claro que pedi para ver.

E vi.

E ali estavam algumas das fotos mais impressionantes que eu já tinha visto até então.

Enquadramento perfeito.
Luz impecável.
Nitidez absurda.

Guardei minha Nikon.

E pensei, com a sinceridade de quem acabou de levar um banho de realidade:

— Acho que não é só a máquina.

Naquele momento entendi duas coisas:

Primeiro, que o mundo é muito maior do que a gente imagina — inclusive em tecnologia.

E segundo… que tem gente que não precisa de muito para fazer melhor.

Até hoje não sei se era a câmera, o tripé, o controle remoto… ou a vietnamita.

Mas uma coisa eu sei:

Naquela tarde, em Paris,
quem tirou as melhores fotos…
não fui eu.

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