Idolos do rádio

 Abril de 2010 — uma das primeiras do blog

José Silvério é um dos ícones da narração esportiva brasileira. Os cariocas e os mais novos talvez não se lembrem dele: os primeiros porque o rádio paulista não é tão ouvido na capital; os segundos porque o rádio virou quase figuração e já não se escuta como nos meus tempos de garoto. Lá em Miracema, ainda menino, ele era meu fiel companheiro — a minha internet, moderníssima para uma época de pouca informação.

Pois bem, eu dizia que José Silvério, um dos grandes nomes do radialismo esportivo, me abriu a memória e me levou a mergulhar em um passado maravilhoso. Um tempo em que o rádio nos oferecia as mesmas emoções que hoje nos chegam pela televisão — no futebol e no noticiário — ou pela internet, quando buscamos as notícias quentinhas do cotidiano.

José Silvério foi o convidado do programa Bola da Vez, da ESPN, exibido esta semana. O locutor, nascido no interior de Minas Gerais, começou a carreira no Rio, na Emissora Continental, ao lado de Clóvis Filho e de outras feras dos anos 60. Depois fez sucesso em São Paulo, na Jovem Pan, e ainda hoje irradia — como ele gosta de dizer — jogos pela Bandeirantes, uma das grandes emissoras dos anos dourados do rádio brasileiro.

Ouvindo sua narrativa, lembrei o quanto o rádio foi fundamental para nós, amantes da locução esportiva e de tudo o que ele é capaz de proporcionar. José Silvério, como eu e tantos outros, começou narrando partidas de futebol de botão, espelhando-se nos grandes nomes da época, que nos faziam sonhar e imaginar como seria um jogo ao vivo e a cores.

Ao ouvir sua história, mergulhei de vez no passado do rádio. Fui buscar na memória os gritos de gol, os bordões, as palavras de ordem dos grandes narradores. E tentei comparar com os de hoje. Infelizmente, não encontro um sequer que eu possa dizer que teria lugar naquelas equipes espetaculares formadas por Continental, Nacional, Globo ou Tupi, no Rio de Janeiro — ou por Pan-Americana, Globo, Tupi, Gazeta e Bandeirantes, em São Paulo.

Cresci ouvindo as resenhas esportivas da Continental. As transmissões de Clóvis Filho eram minhas preferidas. Mas, quando Jorge Cury — o eterno narrador brasileiro — transmitia jogo do Flamengo, aí a história era outra. Waldir Amaral eu já contei por aqui. Mas a novidade de hoje, impulsionada pela presença de José Silvério no Bola da Vez, é a lembrança dos grandes locutores paulistas — um espetáculo à parte no rádio esportivo brasileiro.

Meu grande ídolo era Haroldo Fernandes, da Tupi. Foi ele quem inspirou minhas primeiras narrações, ainda no futebol de botão. Haroldo dizia: “Gol do Palmeiras! Ademir da Guia, o homem da camisa 10! Tá todo mundo correndo para abraçar aquele moço!”. Bonito, não é? Que prazer eu tinha em ouvi-lo. Às vezes, até esquecia que havia jogo do Flamengo no Rio só para escutar Haroldo Fernandes.

Outro que também me inspirou — um pouco mais recente, mas da minha geração — foi Osvaldo Maciel. Já ouvi muitas histórias dele. Como eu, é amante da música e um exímio cantor depois de algumas cervejinhas. Seu bordão, aliás, foi “clonado” por mim no início da carreira, lá na Princesinha: “De peito aberto e o coração cheio de amor pra dar”.

Osvaldo Maciel só não era o primeiro narrador da Globo porque lá estava outro ícone: Osmar Santos, o “Pai da Matéria”, ídolo dos paulistas. Tentou carreira na televisão, mas o sonho ficou no nascedouro: um acidente automobilístico lhe tirou a voz e limitou seus movimentos.

Bola pra frente. Vamos seguir sonhando com o rádio e acreditando que ele ainda é — e será por muitos anos — o nosso fiel companheiro de todos os dias.

Crônica republicada a pedidos de um dos notáveis do blog, José Luiz da Silva.

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