O discurso
Hoje… lembrar de Miracema…
é lembrar dos nomes de ruas tão pitorescos…
Rua Direita…
Rua das Flores…
Rua do Café…
Rua do Biombo…
Rua da Lage…
Rua do Sapo…
Rua de Cima…
Rua de Baixo…
Rua da Capivara…
Jardim de Cima…
Jardim de Baixo…
Rua do Cruzeiro…
(pausa breve)
Tadeu já escreveu.
Carlos Augusto já escreveu.
Eu… Adilson Dutra… também já escrevi.
Mas os personagens da nossa Miracema…
esses… não saem da memória.
(olha o público)
E quando será o fim disso?
Quando será?
(pausa curta)
Eu sei…
antes da minha partida… isso não acaba.
Porque eu vou continuar lembrando.
Sempre.
(ganha leveza)
Como seu Botelho… pai do Thiara…
o homem que me apontou um caminho e disse:
“Escreva sobre futebol… você vai ser colunista.”
E cá estou… até hoje.
(sorri de leve)
Ou seu Scilio Faver… nosso médico…
Eu, menino, cabeça aberta na trave do Rink… sangue descendo…
chego na farmácia…
E ele, tranquilo:
“Senta aí… vou te costurar.”
(pausa — humor)
Eu pensei: pronto… lá vêm os pontos…
Que nada!
Era “ponto de chapinha”.
Não sei explicar até hoje…
mas resolveu!
(leve riso do público)
E no meu “Triângulo das Bermudas”…
seu Amaro…
os filhos… os amigos… irmãos de vida…
Seu Otávio…
seu Ademar…
Cabo Atleta…
E… Neca Solão…
(baixa um pouco o tom)
Que medo a gente tinha…
Nunca fez mal a ninguém.
Mas a figura… impressionava.
(retoma ritmo)
E tinha também os fazendeiros…
seu Orlando…
seu Cocote…
seu Oswaldo…
Gente que fazia parte… do nosso mundo.
(tom mais afetivo)
Seu Evaldo… que emprestava o rádio…
pra gente ouvir
Jerônimo, o Herói do Sertão…
Seu Zé Barros…
pai do Júlio… meu irmão de fé.
E nós três…
Júlio…
Thiara… o nosso Gutinho…
e eu.
(pausa com peso)
Um trio.
Na quadra…
no campo…
na vida.
Como dizia minha irmã Eliana:
“Vocês três… para toda a vida.”
(silêncio breve)
É isso, Thiara…
para toda a vida.
Você partiu…
está no Oriente Eterno…
(olhar levemente elevado)
Mas ainda somos três.
Para sempre.
(retoma, fechando ideias)
E, como disse Carlos Augusto Macedo…
lembrar de Miracema…
é lembrar do seu conteúdo.
E o conteúdo de Miracema…
são as pessoas.
Todas.
Sem exceção.
(com firmeza)
Todas fazem parte de mim.
(desacelera)
Recordar… faz bem.
As lembranças — boas… ou más…
(se é que existem más…) —
se encontram…
se misturam…
e passam a ser… quem nós somos.
(pausa final — bem colocada)
E, para encerrar…
com uma do Casal…
— espero que ele não reclame lá de cima —
(leve sorriso)
Lembrar de Miracema…
é ouvir… ainda hoje…
como se fosse verdade…
o som da…
Furiosa…
nas madrugadas…
dos dias de festa.
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